Médico esclarece dúvidas sobre epilepsia

Jornal Santuário de Aparecida
01/04/2014

O pintor holandês Vincent van Gogh, os escritores Fiódor Dostoiévski e o brasileiro Machado de Assis não tinham em comum apenas o talento artístico-literário. Esses gênios compartilhavam também uma doença que atinge cerca de 50 milhões de pessoas no mundo: a epilepsia, que tem como sintoma mais conhecido entre a população o ataque epilético. Machado de Assis, por exemplo, chegou a descrever a epilepsia em uma de suas obras, em Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica (…)”.

O neurocirurgião especialista em epilepsia, pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), membro do grupo de tumores do Departamento de Neurocirurgia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e integrante da diretoria da Associação dos Neurocirurgiões do Estado de São Paulo (SONESP), Dr. Luiz Daniel Cetl, explica que a doença é uma síndrome caracterizada por um conjunto de sintomas que são originados de um grupo de neurônios disfuncionantes, que emitem sinais atípicos ou irregulares. No Brasil, a taxa de epilepsia é de aproximadamente 1,8%, sendo mais comum na infância. “As crises da doença podem ser dividas, em parciais, que atingem apenas uma parte do cérebro, ou generalizadas, que afetam todo o órgão.” A epilepsia não é contagiosa, nem uma doença mental, esclarece Cetl.

Segundo o médico, as causas mais comuns da epilepsia são a idiopática (sem causa identificada), atingindo cerce de 55 a 65% dos portadores, doença cerebrovascular (10 a 20%), tumores (4 a 7%), trauma (2 a 6%) e infecção (0 a 3%).

O médico subdivide ainda as crises parciais, que podem ser divididas em simples, sem o comprometimento da consciência, e complexas, em que há algum grau de comprometimento da consciência, como seu enfraquecimento, ou até mesmo a sua perda. “Outro tipo da doença é caracterizado como crise parcial complexa, quando o paciente epiléptico pode apresentar ‘desligamentos’, mostrar olhar fixo e perder o contato por alguns segundos com o meio que o cerca, fazendo movimentos automáticos. Quando ocorrem esses movimentos involuntários, a pessoa pode ficar mastigando, falar de modo incompreensível ou andar sem direção definida. Em geral, o paciente não se recorda do que aconteceu”, conta o neurocirurgião.

Luiz Daniel desmitifica que, apesar do sintoma da epilepsia mais conhecido entre a população ser caracterizado como “ataque epiléptico”, em que a pessoa perde a consciência e cai no chão, apresentando contrações musculares em todo o corpo, mordedura da língua, salivação intensa, respiração ofegante e, às vezes, até urinar, os sintomas da doença podem ser variados, dependendo da localização do grupo de neurônios, como flashes e luzes à movimentação espontânea e incontrolável de mãos, braços e pernas.

A doença não tem cura, mas pode ser tratada por via medicamentosa ou cirúrgica. O tratamento convencional para a epilepsia é com uso das chamadas drogas antiepilépticas (DAE), eficazes em cerca de 70% dos casos (há controle das crises) e com efeitos colaterais diminutos. Quando não há controle destes sintomas, outros tratamentos possíveis são a cirurgia, a estimulação do nervo vago e dieta cetogênica. No entanto, apenas um profissional, analisando o caso, poderá indicar o tratamento apropriado para o paciente.

Por fim, o neurocirurgião ressalta que o objetivo do tratamento é garantir uma melhor qualidade de vida ao paciente. “Quando não tratadas, a qualidade de vida do epiléptico é fortemente afetada. Por não ter controle das crises, muitas vezes o paciente não consegue manter o emprego e/ou os estudos, além de estar mais propício a acidentes. Outra grave consequência é relacionada ao estado de mal convulsivo (várias convulsões seguidas, sem recuperação entre elas), que se não tratado rapidamente, pode levar a danos cerebrais definitivos. No entanto, com acompanhamento médico e, consequentemente, com o devido tratamento, pacientes com epilepsia levam uma vida normal, muitos alcançando destaque profissionalmente”.

Ao perceber uma crise epiléptica existe algo que se possa fazer para ajudar a pessoa ou é melhor não interferir?

De acordo com Dr. Cetl, o ideal é deitar a pessoa no chão e afastá-la de objetos e móveis que ela possa se machucar enquanto estiver se debatendo. Jamais deve-se colocar a mão o dedo na boca do paciente.

Como o portador, durante uma crise, tem salivação intensa, o indicado é mantê-lo de lado para evitar que ele sufoque com a saliva. Por fim, deixe que ele se debata livremente até que a crise passe.

Fonte: http://jornal.editorasantuario.com.br/medico-esclarece-duvidas-sobre-epi...