Cirurgia com o paciente acordado: ficção ou realidade?

Imagine a cena. Você, imobilizado em uma maca de hospital, acordado e capaz de ouvir o som dos movimentos do cirurgião que está realizando um procedimento na sua cabeça, mas sem sentir dor alguma. Imaginou? Parece improvável e está mais para uma cena de filme de ficção cientifica, não é? Ledo engano. O que foi narrado já é realidade e contribui muito para o tratamento de tumores cerebrais.

Conhecida como ‘awake craniotomy’ (literalmente cirurgia acordada, em português), a técnica consiste na remoção do tumor cerebral. O paciente é submetido a uma anestesia geral e, após a abertura do osso do crânio, ele é acordado, através da diminuição do nível da sedação. Nesse momento é feito um mapeamento da localização do tumor e de áreas eloquentes (área motora, sensitiva e, principalmente, da fala). Após o mapeamento de todas as áreas de interesse, o paciente é novamente colocado em anestesia geral e a cirurgia é completada e o tumor removido total ou parcialmente.

No Brasil, o procedimento é recente, sendo realizado de rotina há menos de 10 anos.

Antes da cirurgia, são adicionados eletrodos nas mãos, pernas ou nas áreas em que se quer testar os estímulos cerebrais do paciente. A manutenção do paciente acordado tem uma função: ao mexer os órgãos nos quais estão instalados os eletrodos, o neurocirurgião identifica os estímulos cerebrais e também terá precisão das áreas malignas atingidas pelo tumor. No momento da estimulação, o paciente pode, por exemplo, parar de falar uma frase ou demonstrar alteração na fala (parafasia), sinalizando alteração em algum circuito da fala.
A grande vantagem é que o procedimento permite o controle da remoção, garantindo uma extração maior do tumor sem comprometer alguma função cerebral, resultando em menos déficit pós-operatório, visando uma melhor qualidade de vida do paciente e o controle do tumor: quanto mais tumores são retirados, maiores as chances de recidivas.

Saiba mais sobre o câncer cerebral:

Existem tumores cerebrais muito invasivos, provocando mudanças físicas, sociais e psicológicas no doente. É importante que o paciente tenha um tratamento multiprofissional, onde se inserem também, além do neurocirurgião, os neurologistas, oncologistas, psicólogos, fisiatras e fisioterapeutas, entre outros. Ou aspecto fundamental no processo de recuperação é o apoio dos familiares.

O câncer cerebral é consequência da multiplicação desordenada das células no interior da caixa craniana. Os tumores podem ser originários das células do próprio cérebro (chamados de tumores de células gliais), das membranas que recobrem o cérebro (tumores das meninges ou meningeomas), das bainhas dos nervos (neuromas ou neurinomas) ou de outros órgãos ou tecidos que podem se disseminar pelo sangue (tumores metastáticos).

Apesar de inúmeros estudos relacionarem alguns fatores potenciais às causas para o desenvolvimento de um tumor, tais como o uso de determinados medicamentos e exposição a substâncias químicas como indutores de câncer cerebral, porém sem comprovação exata. Outra razão provável é a radiação usada no tratamento do próprio tumor, às vezes provocando o surgimento de outros. A doença geralmente não possui uma causa única para o seu surgimento.