Técnica pouco conhecida de implante de marca-passo contribui para a normatização do processo respiratório em pacientes tetraplégicos com lesão medular

A respiração é um processo natural em que as células do nosso corpo absorvem oxigênio (O2) e eliminam dióxido de carbono (CO2). Sendo um processo essencial para a manutenção da vida, quando há limitação em aspirar e expirar o ar, as consequências são graves e, em alguns casos, com risco de morte para paciente tetraplégicos com lesão medular.

É justamente para normalizar o sistema respiratório que um novo dispositivo, disponível há 10 anos no Brasil, tem gerado bons resultados e proporcionado melhor qualidade em pacientes até então dependentes de ventilação mecânica: o marca-passo diafragmático. Com FDA nos EUA desde 1986, aqui no país ela é pouco divulgada e expandida aos casos que poderiam se beneficiar com ela.

Mas, afinal, o que é um marca-passo diafragmático? Como é implantado e como funciona? Confira!

1. O que é um marca-passo diafragmático?

É um dispositivo que é implantado para controlar a respiração de quem não consegue respirar sozinho. A técnica de implante do marca-passo é muito semelhante à técnica utilizada no estimulador do nervo vago (o que muda basicamente é o nervo abordado, nervo frênico, e a via é a mesma), onde os pacientes têm alta no mesmo dia do procedimento ou no dia seguinte.

2. Como ele é implantado? Como é a cirurgia e o pós-cirúrgico?

O marca-passo diafragmático é implantado junto ao nervo frênico (nervo responsável pela respiração), mas pode ser posicionado no trajeto do nervo, na cavidade torácica ou no pescoço. É implantado nos dois lados para estimular tanto o nervo esquerdo como o direito. Geralmente o aparelho é ligado apenas cerca de duas semanas após a cirurgia.

3. Para quais casos é indicado o marca-passo diafragmático?

É indicado para pacientes que não conseguem controlar a respiração. Em geral, são indivíduos tetraplégicos com lesão medular alta (acima da vértebra C4) ou com Síndrome de Ondine, uma condição genética raríssima em que o paciente não respira durante a fase REM do sono - fase caracterizada pela atividade cerebral de baixa amplitude e mais rápida, por episódios de movimentos oculares rápidos e de relaxamento muscular máximo).

4. Por que são indicados em casos de tetraplegia com lesão medular alta?

Estes casos são a quase totalidade das indicações. As contraindicações limitam-se a pacientes que possuem lesões do nervo frênico (quando o nervo não funciona).

5. Qual a incidência dos casos?

Nos Estados Unidos, a incidência de trauma medular é de 12.500 casos novos ao ano, sendo que desses, 47% apresentam tetraplegia parcial e 16% tetraplegia completa.

A expectativa de vida de pacientes com lesão medular e ventilador dependentes é de 16,8 anos, quando sobrevivem às primeiras 24 h e têm a lesão por volta dos 20 anos de idade. Aos 40 anos,

a sobrevida é de 7,5 anos e, aos 60 anos, 1,6 anos. Dos que sobrevivem ao primeiro ano e têm lesão aos s20 anos, a expectativa é de 25 anos; aos 40 anos, 12,3 anos, e aos 60 anos, 3,8 anos de sobrevida.

Problemas respiratórios são a principal causa de morte em pacientes com tetraplegia por lesão medular alta. Sendo assim, o marca-passo diafragmático faz com que esses pacientes não necessitem de ventilador mecânico para viver, o que ainda melhora a mobilidade do paciente, pois não necessita ficar acamado.

6. Quais benefícios?

O marca-passo diafragmático fornece função fisiológica respiratória muito superior em comparação aos ventiladores mecânicos, porque o ar inalado é puxado para os pulmões pela musculatura, ao invés de ser forçado para o peito sob pressão mecânica. Os benefícios do marca-passo diafragmático incluem:

• custo-eficácia, uma vez que os pacientes podem viver fora dos hospitais e os custos de um ventilador e seus componentes descartáveis são eliminados.

• menor taxa de infecção devido à redução na aspiração, eliminação do umidificador externo e dos circuitos do ventilador, além da possibilidade de remoção do tubo de traqueostomia (em pacientes que tiveram sua traqueostomia fechada).

• melhoria do retorno venoso (quantidade de sangue que chega ao coração por minuto).

• respiração e fala normais.

• facilidade de comer e beber.

• aumento da mobilidade.

• uso discreto devido ao pequeno tamanho dos componentes externos e funcionamento totalmente silencioso.

7. Há dados de implantes realizados no Brasil?

Os poucos casos no Brasil são de implantes na cavidade torácica, realizados por cirurgiões torácicos. Nosso objetivo, agora, é realizar a técnica com o implante na região cervical, que possui uma morbidade menor que os implantes na cavidade torácica. Além disso, em alguns países, como a Suécia, praticamente todos os casos são feitos por via cervical. No Brasil, nos últimos 5 anos, foram realizados 25 implantes, o que tem contribuído para o resgate à qualidade de vida daqueles pacientes que até então ficavam presos a uma cama e ligados a um ventilador para sobreviver.

8. O SUS cobre a técnica?

Infelizmente, nem o SUS nem convênios médicos cobrem diretamente a técnica de implante do marca-passo diafragmático. Alguns casos precisaram de parecer jurídico, sendo sua maioria para pacientes do SUS.